BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC


Minhas senhoras, meus senhores:

Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar de não possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan Kardec, e de não saberem onde encontrar, sobre aquele a quem chamamos Mestre, as informações que desejariam conhecer. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos hoje reunidos, e mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz vibrar todos os corações. Em respeito ao fundador da filosofia espírita, permiti-me, no intuito de tentar corresponder a tão legítimo desejo, que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre amado, cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados, e cuja vida íntima e laboriosa existência são apenas conjeturadas.
Se fácil foi a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas produções, bem poucos puderam, pela ausência até hoje de elementos para isso, penetrar na vida do homem íntimo e seguí-lo passo a passo no desempenho da sua tarefa, tão grande, tão gloriosa e tão bem preenchida.

Foi, com efeito, em Lião, que, a 3 de outubro de 1804, nasceu de antiga família lionesa, com o nome de Rivail, aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia, ao nosso filial reconhecimento.
Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial:
“Aos 12 do vindemiário3 do ano XIII, auto do nascimento de Denizard Hippolyte-Léon Rivail, nascido ontem às 7 horas da noite, filho de Jean Baptiste-Antoine Rivail, magistrado, juiz, e Jeanne Duhamel, sua esposa, residentes em Lião, rua Sala n° 76."
O sexo da criança foi reconhecido como masculino.

Clique aqui e leia na íntegra a Biografia de Allan Kardec

BIOGRAFIA MADAME RIVAIL (Sra. Allan Kardec)


Histórico:

Madame Rivail (Sra. Allan Kardec) nasceu em Thiais, cidade do menor e mais populoso departamento francês – o Sena, aos 2 do Frimário do ano IV, segundo o Calendário Republicano então vigente na França, e que corresponde a 23 de Novembro de 1795.
Filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo tabelião, homem portanto bem colocado na vida, e de Julie-Louise Seigneat de Lacombe, recebeu, na pia batismal o nome de Amélie Gabrielle Boudet.

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Curiosidade sobre o Livro dos Espiritos


O Movimento Espírita comemora 150 anos da publicação inicial de “O Livro dos Espíritos”, por Allan Kardec. Os espíritas sabem que Kardec é o pseudônimo de H. L. D. Rivail, professor francês que se dedicou ao estudo dos fenômenos espirituais no século XIX.

O Recebimento do Livro na França

O livro nasceu sob o signo da polêmica, e como tal, esgotou-se rapidamente. A primeira edição era composta de três livros (partes), intitulados “Doutrina Espírita”, “Leis Morais” e “Esperanças e Consolações”. A segunda edição, publicada em março de 1860, base da maioria das traduções brasileiras, foi uma ampliação significativa da primeira edição. Ela apresentava 1019 questões feitas aos espíritos, acrescidas de comentários, contra as 550 questões da primeira edição.

A primeira parte desdobrou-se em duas: “Causas Primeiras” e Mundo Espiritual ou dos Espíritos”. Criticado por uns, elogiado por outros, o livro coroa o projeto original do Prof. Rivail de discutir filosoficamente com os espíritos, através de diferentes médiuns, questões de assuntos diversos, capazes de circunscrever uma doutrina que tratasse da origem, trajetória e destino dos Espíritos.

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Clique em cima do nome da obra e estudos de Allan Kardec e faça a sua leitura:

  • O Livro dos Espiritos
  • O_Livro dos Mediuns
  • O Evangelho Segundo o Espiritismo
  • Viagem Espirita 1862
  • A Genese
  • O Ceu e o Inferno
  • Obras_Postumas
  • O espiritismo em sua expressão mais simples
  • resumo das leis dos fenomenos espiritas
  • revista espirita 1858
  • revista espirita 1859
  • revista espirita 1860
  • revista espirita 1861
  • revista espirita 1862
  • revista espirita 1863
  • revista espirita 1864
  • revista espirita 1865
  • revista espirita 1866
  • revista espirita 1867
  • revista espirita 1868
  • revista espirita 1869


  • BIOGRAFIA IRMÃS FOX



    150 ANOS DO EPISÓDIO DE HYDESVILLE
    por Karl W. Goldestein


    A FAMÍLIA FOX

    Em 11 de dezembro de 1847, a família Fox instalou-se em modesta casa no vilarejo de Hydesville, Estado de New York, distante cerca de 30 km da cidade de Rochester.

    O nome da família Fox origina-se do sobrenome Voss, depois Foss e finalmente Fox. Eram de origem alemã, da parte paterna; e francesa, holandesa e inglesa, da parte materna. Seus antecessores foram notoriamente dotados de faculdades paranormais.

    O grupo compunha-se do chefe da família, Sr. John D. Fox, da esposa D. Margareth Fox e mais duas filhas; Kate, com 7 anos e Margareth, com 10 anos. O casal possuia mais filhos e filhas. Entre estas, convém destacar Leah, que morava em Rochester, onde lecionava música. Devido aos seus casamentos, foi sucessivamente conhecida como Mrs. Fisch, Mrs. Brown e Mrs. Underhill.

    Leah escreveu um livro, "The Missing Link", New York, 1885, no qual ela faz referência as faculdades paranormais de seus parentes anteriores.
    Inicialmente, tomaram parte nos acontecimentos somente Kate e Margareth, mas posteriormente Leah juntou-se a elas e teve participação ativa nos episódios subseqüentes ao de Hydesville.

    A CASA DE HYDESVILLE JÁ ERA ASSOMBRADA

    Lucretia Pulver era jovem que servira como dama de companhia do casal Bell, quando elas habitavam a referida casa até 1846. Ela contou uma curiosa história de um mascate que se hospedara com os Bells. Na noite em que o vendedor passou com aquele casal, Lucretia foi mandada a dormir na casa dos pais. Três dias depois tornaram a procurá-la. Então disseram-lhe que o mascate fora embora. Ela nunca mais viu esse homem.

    Depois disso, passado algum tempo, aproximadamente em 1844, começaram a dar-se fenomenos estranhos naquela casa. A mãe de Lucretia, Sra. Ann Pulver, que mantinha relações com a família Bell, relata que, em 1844, quando visitara a Sra. Bell, indo fazer tricô em sua companhia, ouvira desta uma queixa, Disse-lhe que se sentia muito mal e quase nao dormia à noite. Quando lhe perguntou qual a causa, a Sra. Bell declarou que se tratava de rumores inexplicáveis; parecera-lhe ter ouvido alguém a andar de um quarto para outro; acordou o marido e fe-lo levantar-se e trancar as janelas. A princípio, tentou afirmar à Sra. Pulver que possivelmente se tratasse de ratos. Posteriormente, confessou não saber qual a razão de tais rumores, para ela inexplicáveis.

    A jovem Lucretia Pulver também testemunhou os fenômenos insólitos observados naquela casa.

    Os Bells terminaram por mudar-se.

    Em 1846, instalou-se ali a família Weekman: Sr. Michael Weekman, Sra. Hannah Weekman e suas filhas. Alguns dias após terem-se alojado na referida casa, passaram a ser perturbados por ruídos insólitos: batidas na porta da entrada, sem que ninguém visível o estivesse fazendo; passos de alguém andando na adega ou dentro de casa.

    A família Weekman, como era de esperar-se, não permaneceu muito tempo naquela casa sinistra. Em fins de 1847 deixou-a vaga, saindo de lá definitivamente.

    Desse modo, atingimos a data de 11 de dezembro de 1847, quando a referida casa passou a ser ocupada pela família Fox, conforme já mencionamos no início deste artigo.

    A NOITE DAS PRIMEIRAS TRANSCOMUNICAÇÕES

    Inicialmente os Fox não sofreram nenhum incômodo em sua nova residência. Entretanto, algum tempo depois, mais precisamente nos dois primeiros meses de 1848, os mesmos ruídos insólitos que perturbaram os antigos inquilinos voltaram a manifestar-se outra vez. Eram batidas leves, sons semelhantes aos arranhões nas paredes, assoalhos e móveis, os quais poderiam perfeitamente ser confundido com rumores naturais produzidos por vento, estalos do madeiramento, ratos, etc. Por isso a família Fox não deveria ter-se sentido molestada ou alarmada. Entretando, tais ruídos cresceram de intensidade, a partir de meados de março de 1848. Batidas mais nítidas e sons de arrastar de móveis começaram a fazer-se ouvir, pondo as meninas em sobressalto, ao ponto de negarem-se a dormir sozinhas no seu quarto, e passarem a querer dormir no quarto dos pais. A princípio os habitantes da casa, ainda incrédulos quanto à possível origem sobrenatural dos ruídos, levantavam-se e procuravam localizar a causas natural dos mesmos.

    Na noite de 31 de março de 1848, desencadeou-se uma série de sons muito forte e continuados. Aí, então, deu-se o primeiro lance do fantástico episódio, que ficou como um marco inamovível na história da fenomenologia paranormal. A garota de sete anos de idade - a Kate Fox - em sua espontaneidade de criança teve a audácia de desafiar a "força invisível" a repetir, com os golpes, as palmas que ela batia com as mãos! A resposta foi imediata, a cada estalo um golpe era ouvido logo a seguir! Ali estava a prova de que a causa dos sons seria uma inteligência incorpórea. Para apreciar-se bem o sabor desta incrível aventura, vamos transcrever alguns trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox.

    "Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos; íamos ter uma noite de repouso. Meu marido que aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisar. Naquela noite fomos cedo para a cama - apenas escurecera. Achava-me tal alquebrada e com falta de repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu distinguia de qualquer outro ruído jamais ouvido. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto, ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os dedos. Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: "Senhor Pé Rachado, Faça o que eu faço." Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando: "Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro" e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na simplicidade infantil: "Oh! mamãe! eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira."

    "Então pensei em fazer um teste que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo pausa de um para outro, a fim de separar, até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo a idade do menor, que havia morrido.

    "Então perguntei: Eh um ser humano que me responde tão corretamente? Não houve resposta. Perguntei: É um espírito? Se for, de duas batidas. Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: Se for um espírito assassinado dê duas batidas. Essas foram dadas instantaneamente, produzindo um tremor na casa. Pergutei: Foi assassinado nesta casa? A resposta foi como a precedente. A pessoa que o assassinou ainda vive? Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinaram nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: Continuará a bater se chamarmos os vizinhos para que também escutem? A resposta afirmativa foi alta."

    Desse modo foram chamados vários vizinhos, os quais por sua vez convocaram outros, de maneira que, mais tarde e nos dias subseqüentes, o número de curiosos era enorme. Naquela noite compareceram o Sr. Redfield, o Sr. e Sra. Duesler e os casais Hyde e Jewell.

    "Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. Em seguida indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido morto por algum deles, mas não obtive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas e obteve as respostas. Perguntou: Foi assassinado? Resposta afirmativa. Seu assassino pode ser levado ao tribunal? Nenhuma resposta. Pode ser punido pela lei? Nenhuma resposta. A seguir disse: Se seu assassino não pode ser punido pela lei de sinais. As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr. Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto do leste, a cinco anos passado, e que o assassínio fora cometido à meia noite de uma terça-feira, por Mr......; que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo havia sido enterrado; tinha passado pela dispensa, descido a escada e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi constatado que o móvel fora dinheiro.

    "Quanta a quantia: cem dólares? Nenhuma resposta. Duzentos? Trezentos? etc. Quando mencionou quinhentos dólares as batidas confirmaram.

    "Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão. Estes ouviram as mesma perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr. Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se ouviram os sons, mas ao anoitecer recomeçaram. Diziam que mais de trezentas pessoas achavam-se presentes. No domingo os ruídos foram ouvidos o dia inteiro por todos quantos se achavam em casa".

    Estes são os principais trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox, que mais nos interessam para dar uma descrição viva dos acontecimentos de Hydesville, na sinistra noite de 31 de março de 1848.

    AS ESCAVAÇÕES NA ADEGA

    Os mais interessados em esclarecer o caso resolveram escavar a adega, visando encontrar os despojos do suposto assassinado. Eis que, através de combinação alfabética com as pancadas produzidas, chegaram à identidade da vítima. Tratava-se de um mascate de nome Charles B. Rosma, o qual tinha trinta e um anos quando, há quatro anos passado, fora assassinado naquela casa e enterrado na adega. O assassino fora um antigo inquilino. Só poderia ter sido o Sr. Bell... Mas onde a prova do fato, o cadáver da vítima? A solução seria procurá-lo na adega, onde estaria enterrado.

    As escavações, porém, não levaram a resultados definitivos, pois deram n'água, sem que se tivessem encontrado quaisquer indício. Por essa razão foram suspensas.

    No verão de 1848, o próprio Sr. David Fox auxiliado por alguns interessados retomou o empreendimento. A uma profundidade de um metro e meio, encontraram uma tábua. Aprofundada a cova, encontraram o carvão, cal, cabelos e alguns fragmentos de ossos que foram reconhecidos por um médico como pertencentes a esqueleto humano; mais nada.

    As provas do crime eram precárias e insuficientes, razão talvez pela qual o Sr. Bell não foi denunciado.

    A DESCOBERTA DO ESQUELETO

    Em o número de 23 de novembro de 1904, do Boston Journal, foi notificada a descoberta do esqueleto de um homem cujo Espírito se supunha ter ocasionado os fenômenos na casa da família Fox em 1848. Meninos de uma escola achavam-se brincado na adega da casa onde moravam os Fox. A casa tinha fama de ser mal-assombrada. Em meio aos escombros de uma parede - talvez falsa - que existira na adega, os garotos encontraram as peças de um esqueleto humano.

    Junto ao esqueleto foi achada uma lata de uma espécie costumeira usada por mascates. Esta lata encontra-se agora em Lilydale, a sede central regional dos Espiritualistas Americanos, para onde foi transportada a velha casa de Hydesville.

    Como pode ver-se, cinquenta e seis anos depois, em 22 de novembro de 1904 (data do encontro do esqueleto do mascate), parece não haver dúvida de que foram confirmadas as informações obtidas em 1848 a respeito do crime ocorrido naquela casa. Este episódio constitui-se em um notável caso de TCD (transcomunicação direta). As evidências são muito fortes.

    O MOVIMENTO ESPALHA-SE

    As duas garotas, Margareth e Kate, foram afastadas de sua casa, pois suspeitava-se que os fenômenos eram ligados sobretudo à sua presença. Margareth passou a morar com seu irmão David Fox. A Kate mudou-se para Rochester, onde ficou em casa de sua irmã Leah, então casada e agora Sra. Fish. Entretanto, os ruídos insistiam em acompanhar as irmãs Fox; onde elas se achavam, ocorriam os fenômenos. Parece que agora se observava uma espécie de contágio, pois, Leah Fish, a irmã mais velha, passou a apresentar também os mesmos fenômenos. Logo mais, começaram a surgir em outras famílias:

    "Era como uma nuvém psíquica, descendo do alto e se mostrando nas pessoas suscetíveis. Sons idênticos foram ouvidos em casa do Rev. A.H.Jervis, ministro metodista residente em Rochester. Poderosos fenômenos físicos irromperam na família do Diacono Hale, de Greece, cidade vizinha de Rochester. Pouco depois Mrs. Sarah A. Tamlin e Mrs. Benedict de Auburn, desenvolveram notável mediunidade (...)".

    O movimento espalhar-se-ia, mais tarde, pelo mundo, conforme fora afirmado em uma das primeiras comunicações através das irmãs Fox. As próprias forças invisíveis insistiram para que se fizessem reuniões públicas onde elas pudessem manifestar-se ostensivamente. Era uma nova mensagem que vinha do mundo dos Espíritos, conclamando os homens para uma outra posição filosófico-religiosa.

    "SPIRITUALISMO" E ESPIRITISMO

    A "Onda Espiritualista" passou da América para a Europa, cujo terreno já se encontrava preparado pelo desenvolvimento científico, e onde os fenômenos de TC (transcomunicação) iriam ser estudados mais tarde, com rigor e profundidade pelos fundadores da "Psychical Reserch" e da Metapsiquica.

    A forma bastante comum sob a qual a manifestações de TC (transcomunicação) se apresentaram na Europa, foi a das "mesas girantes". Vamos focalizar mais adiante e resumidamente esse período, do qual tambem se originou o Espiritismo na França, gracas às investigações científicas e ao método didático do ilustre intelectual lionês, Denizard Hypplite Leon Rivail (Allan Kardec).

    Nunca é supérfluo enfatizar que não se deve confundir o "Spiritualismo" com o espiritismo. O primeiro nasceu como um movimento popular, provocado por evidências a favor da crença na existência, sobrevivência e comunicabilidade do Espírito. Posteriormente o "Spiritualismo" adquiriu a forma de um religião organizada que aspira, também, ser uma Ciência e uma Filosofia.

    Agora, um ponto importante: o "Spiritualismo" não incorporou a idéia da reencarnação. Ele admite apenas a continuidade da vida após a morte, sem inferno ou céu, porém em contínuo aprendizado e evolução no "Mundo Espiritual".

    Há algumas diferenças entre os princípios básicos do "Spiritualismo" e do Espiritismo. A mais profunda é a questão da "reencarnação". O Espiritismo não só aceita o renascimento, como admite a Lei do Carma, considerando serem estes os fatores naturais da evolução do Espírito. Embora Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, considere Sócrates e Platão como os precursores da idéia cristã e do Espiritismo, a sua atenção para a realidade da comunicação dos Espíritos foi despertada pelo fenômeno das "mesas girantes".

    REPERCUSSÃO ENTRE INTELECTUAIS

    A partir do episódio das irmãs Fox, a transcomunicação, aqui no ocidente, passou atrair a atencao de um pequeno grupo de cientistas. Inicialmente, tais investigadores achavam-se, em sua maioria, imbuidos de forte cepticismo acerca do fenômenos paranormais que passaram a ganhar popularidade inusitada na Europa. Somente a curiosidade diante da estranheza de tais ocorrências conseguiu levar esses poucos cientistas a observá-las. Logo no começo da fase, as pesquisas conduziram à formação de três categorias de pessoas, conforme suas opiniões acerca da natureza dos referidos fenômenos.

    O primeiro grupo consistiu nos que viram nesses fatos uma confirmação de suas crencas na sobrevivência, na comunicabilidade e progresso dos Espíritos. A natureza do homem, para eles, era dual, e continha um componente espiritual além do material. Desta interpretação, surgiu um aspecto religioso como decorrência imediata do reconhecimento da natureza espiritual da criatura humana. O "Spiritualism", na Inglaterra, e o Espiritismo, na França, são exemplos dessa interpretação, embora ambos reivindiquem, também, para suas doutrinas, os aspectos filosóficos e científicos.

    Um segundo grupo constituiu-se, em sua maioria, por cidadãos de acentuado interesse científico. Alguns já eram cientistas profissionais, professores e investigadores em diversas áreas de conhecimento teórico e prático. Outros, com títulos e formação superior, embora nao especialistas em disciplinas científicas, sentiram-se também interessados em investigar de maneira racional os referidos fatos, denominados, na época, "fenômenos psiquicos". Daí a designação usual desta atividade: "Psychical Research" (Pesquisa Psiquica). Na França, Charles Richet deu-lhe outro nome: "Metapsiquica".

    No segundo grupo, figuravam, indistintamente, os espiritualistas, os indiferentes e os materialistas. Apenas os seguintes objetivos pareciam movê-los: confirmar ou negar os propalados fenômenos e, no caso afirmativo, descibrir a sua real causa eficiente.

    Finalmente, um terceiro grupo, compreendendo a maioria dos interessados, colocou-se em franco antagonismo relativamente aos dois primeiros. Compunha-se de cientistas, intelectuais em geral, jornalistas e pessoas comuns. Alguns eram fieis ou chefes de religiões instituídas. Grande número desses cidadãos, especialmente os intelectuais, achava-se impregnado de filosofias materialistas e havia absorvido as ideias positivistas. Revelaram-se profundamente céticos e procuraram liquidar com a crença nos aludidos fenômenos. Para eles, os fenômenos paranormais eram manifestações de superstição, ilusões e fraudes, ou alienação mental. Para alguns religiosos, poderiam ser armadilhas do "demônio", ou tentativas de indivíduos mal intencionados que visavam abalar as bases das religiões tradicionais. Outros chegavam a acreditar que se tratava da revivescencia da Magia e do Ocultismo, numa tentativa de dominio de opinião pública.

    CONCLUSÃO

    Foi neste clima que se desenrolaram as dramáticas transcomunicações, cuja iniciativa, ao que parece, partiu do Plano Espiritual. As manifestações mais em evidência foram as chamadas "Mesas Girantes". Este episódio inaugurou o Período Espíritico, conforme a classificação de Charles Richet. Segundo este sábio, tal período vai das irmãs Fox ate as pesquisas de Sir Willian Crookes, em 1872.

    Fonte: Grupo de Estudos Avançados Espíritas - GEAE

    Curiosidades

         O Marco Inicial do Espiritismo data de 18 de abril de 1857, com o lançamento do Livro dos Espíritos, por Allan Kardec, que foi o codificador do Espiritismo.

         Precursores do Espiritismo:

             Com grande cópia de erudição, Barão Luis Guldenstubbé demonstrou que quase todos os grandes filósofos dos antigos tempos foram espíritas:
                     "O próprio Aristóteles nos diz que os seres invisíveis são tão reais como os visíveis e têm corpos_sutis_e_etéreos. é também um fato, reconhecido pelos mais adiantados literatos modernos, que as maiores mentalidades da Grécia admitiam a realidade objetiva das aparições e dos fantasmas, acreditando, além disso, que os Espíritos e os seres sobrenaturais se_comunicavam com os mortais. O próximo triunfo do Espiritismo deveria encher de alegria os corações de todas as pessoas religiosas; dar-se-á isso? Ao contrário, os nossos cristãos manifestamente ortodoxos, cegos pela sua demonofobia, lamentam essa derrota prevista do materialismo, o imortal inimigo de todas as religiões."
             Paracelsus, Cornelius Agripsa, van Helmont e Jacob Boehme se acham entre os pioneiros do Espiritismo, sentindo o seu caminho fora da matéria, embora vago o objetivo que tivessem atingido. [107 - Capítulo 21]
             Jakob Böhme, por vezes grafado como Jacob Boehme:
                     Jakob Böhme"
                     Biografia de Boehme
             Biografia de Emanuel Swedenborg
             Biografia de Johann Kaspar Lavater

         O Espiritismo progride muito; mas, durante duas ou três gerações, ainda haverá um fermento de incredulidade, que unicamente o tempo aniquilará. Sua marcha, porém, será mais célere que a do Cristianismo, porque o próprio Cristianismo é quem lhe abre o caminho e serve de apoio.

             O Cristianismo tinha que destruir;
             o Espiritismo só tem que edificar.

         O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.

             Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos;
             como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações.

             Pode-se defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.

    Allan Kardec

         O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência e não se ocupa com questões dogmáticas. Essa ciência tem conseqüências morais como todas as ciências filosóficas. Algumas pessoas estão equivocadas sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A questão é bastante grave e merece algum desenvolvimento.

         A finalidade divina do Espiritismo é a iluminação dos sentimentos, na sagrada melhoria das características morais do homem.

         O Espiritismo cristão não oferece ao homem tão somente o campo de pesquisa e consulta, no qual raros estudiosos conseguem caminhar dignamente, mas, muito mais que isso, revela a oficina de renovação, onde cada consciência de aprendiz deve procurar sua justa integração com a vida mais alta,...

             pelo esforço interior,
             pela disciplina de si mesma,
             pelo autoaperfeiçoamento.

         Não esqueçais que o fim essencial, exclusivo, do Espiritismo é a vossa melhora e que, para o alcançardes, é que os Espíritos têm a permissão de vos iniciarem na vida futura, oferecendo-vos dela exemplos de que podeis aproveitar.

         A Doutrina Espírita assemelha-se, de algum modo, à árvore robusta espalhando ramaria, flores, frutos e essências, em todas as direções.

         Espiritismo é revelação_divina para a renovação fundamental dos homens.

         Em verdade, pois, nobre é a missão do Espiritismo, descortinando a grandeza da universalidade divina à acanhada visão terrestre; no entanto, muito maior e muito mais sublime é a missão do nosso ideal santificante com Jesus para o engrandecimento da própria Terra, a fim de que o Planeta se divinize para o Reino do Amor Universal.

         Espiritismo é um corpo de princípios morais, objetivando a libertação da alma humana para a Vida Maior.

         Teorias e fenômenos inexplicáveis sempre houve no mundo. Os escritores e os cientistas doutrinários poderão movimentar seus conhecimentos na construção de novos enunciados para as filosofias terrestres, mas a obra definitiva do Espiritismo é a da edificação da consciência_profunda no Evangelho_de_Jesus-Cristo.

         O Espiritismo evangélico é o Consolador_prometido_por_Jesus, que, pela voz dos seres redimidos, espalham as luzes divinas por toda a Terra, restabelecendo a verdade e levantando o véu que cobre os ensinamentos na sua feição de Cristianismo redivivo, a fim de que os homens despertem para a era grandiosa da compreensão espiritual com o Cristo.

         Desvendando conhecimentos novos à Humanidade, o Espiritismo incorpora ao nosso patrimônio mental valiosas informações sobre a vida imperecível, indicando a nossa posição de espíritos imortais em temporário aprendizado, nas classes ...

             da raça,
             da nação
             e do grupo consangüíneo a que transitoriamente pertencemos na Terra.

         A Ciência, a Filosofia e a Religião constituem o triângulo sobre o qual a Doutrina Espírita assenta as próprias bases, preparando a Humanidade do presente para a vitória suprema do Amor e da Sabedoria no grande futuro.

             A Ciência indaga,
             a Filosofia conclui
             e o Evangelho ilumina.

         A Ciência e a Filosofia são meios, o Evangelho é o fim. Se a Ciência e a Filosofia são fundamentos indiscutíveis de nossa Doutrina Consoladora, em torno delas o espírito costuma vaguear longos séculos ao redor de concepções puramente humanas, enquanto que no Evangelho encontra nossa alma a companhia do Amigo Celestial, com quem é possível alcançar o monte da iluminação para a Vida Infinita, sem escalas através das estações de prova desnecessária, com ruinosa perda de tempo e de energia na Obra do Senhor.

    EMMANUEL - Psicografado por Francisco Cândido Xavier
    Trabalho de João Gonçalves Filho - Espiritismo 1016

         "Aqui eu vos detenho, senhor; me fazeis muita honra atribuindo-me esse sistema, porque não me pertence. Ele foi inteiramente deduzido do ensinamento dos Espíritos. Eu vi, observei, coordenei, e procuro fazer os outros compreenderem o que eu próprio compreendo; eis toda a parte que nele me cabe. Há entre o Espiritismo e os outros sistemas filosóficos esta diferença capital:

             os últimos são obra de homens mais ou menos esclarecidos,
             enquanto que naquele que vós me atribuís não tenho o mérito de invenção de um único princípio.

         Diz-se:

             a filosofia de Platão,
             a filosofia de Descartes,
             a filosofia de Leibnitz;
             não se dirá: a doutrina de Allan Kardec, e isso é bom, pois que importância teria um nome em uma tão grave questão?

             O Espiritismo tem auxiliares bem mais preponderantes, perto dos quais não somos senão átomos."

    Allan Kardec
    Fonte: GUIA - HEU (Homem/Espírito/Universo)

    Diálogo entre Allan Kardec e o Padre, escrito em Paris - 1859

         O padre - Se a Igreja, vendo surgir uma nova_doutrina, nela encontra princípios que, no seu entender, crê dever condenar, contestai-lhe o direito de discuti-los e de combatê-los, de precaver seus fiéis contra aquilo que ela considera um erro?
         Allan_Kardec De forma alguma contestamos um direito que reclamamos para nós mesmos. Se ela tivesse se contido nos limites da discussão, nada de melhor; mas, lede a maioria dos escritos emanados dos seus membros ou publicados em nome da religião, os sermões que pregaram e aí vereis a injúria e a calúnia extravasar de todas as partes, e os princípios da doutrina sempre indigna e maldosamente deturpados.

             * Não se tem ouvido, do alto do púlpito, seus partidários serem qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública?
             * aqueles que ela reconduziu para a fé, anatematizados e rejeitados pela Igreja, pela razão que ela entende melhor ser incrédulo que crer em Deus e na alma através do Espiritismo?
             * não se afligiram por não haver para os espíritas as fogueiras da Inquisição?
             * Em certas localidades, não os apontaram à repreensão dos seus concidadãos, chegando a fazê-los perseguir e injuriar nas ruas?
             * Não se impôs, a todos os fiéis, fugirem deles como de pestilentos, desviando os serviçais de entrarem ao seu serviço?
             * As mulheres não foram solicitadas a separarem-se de seus maridos, e os maridos de suas mulheres, por causa do Espiritismo?
             * Não se fez perder seus lugares nos empregos, retirando aos operários o pão do trabalho e aos necessitados o pão da caridade porque eram espíritas?
             * Não foram despedidos de certos asilos até os cegos, porque não quiseram abjurar sua crença?
             * Dizei-me, senhor abade, está aí a discussão real?
             * Os espíritas opuseram a injúria pela injúria, o mal pelo mal?

             Não. A tudo opuseram a calma e a moderação. A consciência pública já lhes rendeu a justiça de que eles não foram os agressores.

         O padre - Todo homem sensato deplora esses excessos; mas a Igreja não poderia ser responsável pelo abuso cometido por alguns de seus membros pouco esclarecidos.
         Allan Kardec - Concordo com isso;

             * mas esses membros pouco esclarecidos são os príncipes da Igreja?
             * Vede a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros. Não foi um bispo que ordenou o auto-de-fé de Barcelona?
             * A superior autoridade eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados?

             Se, pois, ela tolera sermões indignos no púlpito evangélico, se favorece a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe de cidadãos, se não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião, é porque ela os aprova. Em resumo, a Igreja, repelindo sistematicamente os espíritas que voltavam para ela, forçou-os a retrocederem; pela natureza e violência de seus ataques, ela alargou a discussão e a conduziu para um terreno novo. O Espiritismo não era senão uma simples doutrina filosófica e foi ela mesma que o engrandeceu apresentando-o como um inimigo terrível; enfim, foi ela que o proclamou como uma nova religião. Foi uma imperícia, mas a paixão não raciocina.

         O padre - A religião ensina tudo isso e bastou até o momento; qual é, pois, a necessidade de uma nova doutrina?
         Allan_Kardec - Se a religião basta, por que há tantos incrédulos, religiosamente falando? A religião nos ensina, é verdade, e nos diz para crer; mas há muitas pessoas que não crêem apenas em palavras. O Espiritismo prova, e faz ver o que a religião ensina por teoria. Aliás, de onde vêm essas provas? Da manifestação_dos_Espíritos. Ora, é provável que os Espíritos não se manifestem senão com a permissão de Deus; se, pois, Deus, em sua misericórdia, envia aos homens esse socorro para tirá-los da incredulidade, é uma impiedade recusá-lo.

         O padre - Não discordais, entretanto, que o Espiritismo não está, sobre todos os pontos, de acordo com a religião.
         Allan Kardec - Meu Deus, senhor abade, todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes, os judeus, os muçulmanos, assim como os católicos.

             * Se o Espiritismo negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e da imortalidade, das penas_e_das_recompensas_futuras, do livre_arbítrio do homem;
             * se o Espiritismo ensinasse que cada um, neste mundo, não está senão para si e não deve pensar senão em si, ele seria não somente contrário à religião católica, mas a todas as religiões do mundo; isso seria a negação de todas as leis morais, bases das sociedades humanas.

             Longe disso, os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado e punido segundo o bem ou o mal que fez; eles colocam acima de todas as virtudes a caridade_evangélica e esta regra sublime ensinada pelo Cristo: agir para com os outros como gostaríamos que os outros agissem para conosco. Não estão aí os fundamentos da religião? Eles fazem mais: nos iniciam nos mistérios da vida_futura, que para nós não é mais uma abstração, mas uma realidade, porque são aqueles mesmos que conhecemos que vêm nos descrever suas situações, nos dizer como e porque eles sofrem ou são felizes. Que há nisso de anti-religioso? Essa certeza do futuro, de reencontro com aqueles que amamos, não é uma consolação? Essa grandiosidade da vida espiritual que é nossa essência, comparada às mesquinhas preocupações da vida terrestre, não é própria para elevar nossa alma e a nos encorajar ao bem?

         O padre - Eu concordo que para as questões gerais, o Espiritismo está conforme as grandes verdades do Cristianismo; mas ocorre o mesmo do ponto de vista dos dogmas? Ele não contradiz certos princípios que a Igreja nos ensina?
         Allan_Kardec - O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência e não se ocupa com questões dogmáticas. Essa ciência tem conseqüências morais como todas as ciências filosóficas; são essas conseqüências boas ou más? Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de lembrar. Algumas pessoas estão equivocadas sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A questão é bastante grave e merece algum desenvolvimento.
         Citemos primeiro uma comparação: a eletricidade, estando na Natureza, existiu de todos os tempos e de todos os tempos também produziu os efeitos que nós conhecemos e muitos outros efeitos que não conhecemos ainda. Os homens, na ignorância da causa verdadeira, explicaram esses efeitos de uma maneira mais ou menos bizarra. A descoberta da eletricidade e das suas propriedades veio desmoronar uma multidão de teorias absurdas, lançando luz sobre mais de um mistério da Natureza. O que a eletricidade e as ciências físicas em geral fizeram por certos fenômenos, o Espiritismo fez por fenômenos de uma outra ordem. (Ver: Ciência_e_Espírito)
         O Espiritismo está fundado sobre a existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o espaço, e que não são outros senão as almas daqueles que viveram sobre a Terra, ou em outros globos, onde deixaram seu envoltório_material. São a esses seres que damos o nome de Espíritos. Eles nos rodeiam permanentemente, exercendo sobre os homens, com o seu desconhecimento, uma_grande_influência; eles desempenham um papel muito ativo no mundo moral, e, até um certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo, pois, está na Natureza e pode-se dizer que, em uma certa ordem de idéias, é uma potência, como a eletricidade o é em outro ponto de vista, como a gravitação o é em outro. Os_fenômenos, dos quais o mundo invisível é a fonte, são efeitos produzidos em todos os tempos; eis porque a história de todos os povos deles faz menção. Somente que, em sua ignorância, como para a eletricidade, os homens atribuíram esses fenômenos a causas mais ou menos racionais, e deram a esse respeito livre curso à imaginação.
         O Espiritismo, melhor observado depois que se vulgarizou, veio lançar luz sobre uma multidão de questões até aqui insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter, pois, é o de uma ciência, e não de uma religião; e a prova disso é que conta entre seus adeptos homens de todas_as_crenças, que não renunciaram por isso às suas convicções:

             * católicos fervorosos que não praticam menos todos os deveres de seu culto, quando não são repelidos pela Igreja,
             * protestantes de todas as seitas,
             * israelitas,
             * muçulmanos,
             * e até budistas e brâmanes.

         Ele repousa, pois, sobre princípios independentes de toda questão dogmática. Suas conseqüências morais estão no sentido do Cristianismo, porque o Cristianismo é, de todas as doutrinas, a mais esclarecida e a mais pura, e é por essa razão que, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos estão mais aptos a compreendê-lo em sua verdadeira essência.
         Pode-se, por isso, fazer-lhe uma censura? Cada um, sem dúvida, pode fazer uma religião de suas opiniões, interpretar à vontade as religiões conhecidas, mas daí à constituição de uma nova Igreja, há distância.

         O padre - Pois bem! que dizem os Espíritos superiores com respeito à religião? Os bons devem nos aconselhar, nos guiar. Suponho que eu não tenha nenhuma religião e queira uma. Se eu lhes perguntar: me aconselhais que me torne católico, protestante, anglicano, quaker, judeu, maometano ou mórmon, que responderão eles?
         Allan Kardec - Há dois pontos a considerar nas religiões:

             * os princípios gerais, comuns a todos,
             * e os princípios particulares a cada uma.

         Os primeiros são aqueles de que falamos a toda hora, e que todos os Espíritos proclamam qualquer que seja sua posição. Quanto aos segundos, os Espíritos vulgares, sem serem maus, podem ter preferências e opiniões; eles podem preconizar tal ou tal forma. Eles podem, pois, encorajar em certas práticas, seja por convicção pessoal, seja porque conservam as idéias da vida terrestre, seja por prudência, para não assustar consciências tímidas. Credes, por exemplo, que um Espírito esclarecido, fosse mesmo Fénelon, dirigindo-se a um muçulmano, irá desastradamente dizer-lhe que Maomé era um impostor, e que estará perdido se não se tornar cristão? Ele se guardará disso, porque será repelido.
         Os Espíritos superiores, e quando não são solicitados por nenhuma consideração especial, não se preocupam com questões de detalhes. Eles se limitam a dizer: "Deus é bom e justo; ele não quer senão o bem; a melhor de todas as religiões, pois, é aquela que não ensina senão conforme a bondade e a justiça de Deus; que dá de Deus uma idéia mais ampla, mais sublime, e não o rebaixa emprestando-lhe a pequenez e as paixões_da_Humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a se amarem todos como irmãos; que condena todo mal feito ao próximo; que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que não prescreve nada de contrário às leis imutáveis da Natureza, porque Deus não pode se contradizer; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, de caridade e de moralidade; aquela que tende a combater melhor o egoísmo e a lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens; aquela, enfim, em nome da qual se comete menos mal, porque uma boa religião não pode ser o pretexto de um mal qualquer; ela não deve lhe deixar nenhuma porta aberta, nem diretamente, nem pela interpretação.
         Vede, julgai e escolhei.

         O padre - Suponho que certos pontos da doutrina católica sejam contestados pelos Espíritos, que considerais como superiores. Suponho mesmo que esses pontos sejam errados; aquele para quem eles são artigos de fé, errados ou certos, que os pratica em conseqüência, pode essa crença, segundo esses mesmos Espíritos, ser prejudicial à sua salvação?
         Allan_Kardec - Seguramente não, se essa crença não o afasta da prática do bem, se, ao contrário, ela o incita a isso; enquanto que, a crença mais bem fundada, o prejudicará, evidentemente, se ela lhe é ocasião para a prática do mal, de falta de caridade para com seu próximo, se o torna duro e egoísta, porque, então, ele não age conforme a lei de Deus, e Deus considera o pensamento antes dos atos. Quem ousaria sustentar o contrário?
         Pensais, por exemplo, que um homem que cresse perfeitamente em Deus, e que, em nome de Deus, cometesse atos desumanos ou contrários à caridade, sua fé lhe seja muito proveitosa? Não é tanto mais culpado quanto maiores os meios de esclarecimentos?

         O padre - Assim, o católico fervoroso que cumpre escrupulosamente os deveres do seu culto não é censurado pelos Espíritos?
         Allan_Kardec - Não, se é para ele uma questão de consciência, se o faz com sinceridade; sim, mil vezes sim, se é por hipocrisia, e se não há nele senão uma piedade aparente.
         Os Espíritos superiores, aqueles que têm por missão o progresso_da Humanidade, se erguem contra todos os abusos que podem retardar esse progresso, qualquer que seja a sua natureza, e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes sociais que deles se aproveitam. Ora, não negareis que a religião disso não esteve sempre isenta; se, entre seus ministros, há os que cumprem sua missão com um devotamento todo cristão, que a fazem grande, bela e respeitável, concordareis que nem todos cumpriram sempre a santidade do seu ministério. Os Espíritos eliminam o mal por toda parte onde ele se encontre; assinalar os abusos da religião é atacá-la? Ela não tem maiores inimigos que aqueles que os defendem, porque são esses abusos que fazem nascer o pensamento de que alguma coisa de melhor pode substituí-la. Se a religião corresse um perigo qualquer, seria necessário atribuí-lo àqueles que dela dão uma falsa idéia, transformando-a numa arena das paixões humanas, e que a exploram em proveito da sua ambição.

         O padre - Dizeis que o Espiritismo não discute os dogmas, e, todavia, admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo,

             * a reencarnação,
             * a presença do homem sobre a Terra antes de Adão;

         o Espiritismo nega:

             * a eternidade das penas,
             * a existência dos demônios,
             * o purgatório,
             * o fogo do inferno.

         Allan_Kardec - Esses pontos foram discutidos durante muito tempo, e não foi o Espiritismo que os questionou; são opiniões das quais algumas mesmo são contestadas pela teologia e que o futuro julgará. Um grande princípio os domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição sine qua non do nosso futuro, como nos prova o estado dos Espíritos que se comunicam conosco.

    ...

         O Espírito tem, assim, o arbítrio de sua própria sorte; ele pode prolongar seus_sofrimentos pela sua obstinação no mal, abrandá-los ou abreviá-los pelos seus esforços em fazer o bem.
         A duração do castigo estando subordinada ao arrependimento, disso resulta que o Espírito culpado que não se arrependesse e não se melhorasse jamais, sofreria sempre, e que, para ele, a pena seria eterna. A eternidade das penas, pois, deve-se entender no sentido relativo e não no sentido absoluto.
         Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é de, não podendo ver o termo da sua situação, crer que sofrerão sempre; é para eles um castigo. Mas, desde que sua alma se abra ao arrependimento, Deus lhes faz entrever um raio de esperança.
         Esta doutrina, evidentemente, está mais conforme a justiça de Deus, que pune enquanto se persiste no mal e perdoa quando se entra no bom caminho. Quem a imaginou? Nós? Não; são os Espíritos que a ensinam e a provam pelos exemplos que colocam diariamente sob nossos olhos.
         Os Espíritos não negam, pois, as penas_futuras, uma vez que descrevem seus próprios sofrimentos; e esse quadro nos toca mais que os das chamas_perpétuas, porque tudo nele é perfeitamente lógico.
         Compreende-se que isso é impossível, que deve sê-lo assim, que essa situação é uma conseqüência toda natural das coisas; pode ser aceita pelo pensador filósofo, porque nada nisso repugna a razão. Eis porque as crenças espíritas conduziram ao bem uma multidão de pessoas, mesmo materialistas, que o medo do inferno, tal como nos é pintado, não tinha podido deter.

         O padre - Admitindo vosso raciocínio, pensais que falta ao vulgo imagens mais apavorantes do que uma filosofia que ele não pode compreender?
         Allan_Kardec - Está aí um erro que fez mais de um materialista ou, pelo menos, desviou mais de um homem da religião. Chega um momento em que essas imagens não assustam mais e, então, as pessoas que não se aprofundam, rejeitando uma parte, rejeitam o todo, porque dizem: se me ensinaram como uma verdade incontestável um princípio que é falso, se me deram uma imagem, uma figura pela realidade, quem me diz que o resto é mais verdadeiro? Se, ao contrário, a razão, num crescente, não repele nada, a fé se fortifica. A religião ganhará sempre seguindo o progresso das idéias; se nunca ela devesse periclitar, seria porque os homens não teriam avançado e ela permanecido estacionária. É equivocar-se com a época crer que se pode, hoje, conduzir os homens pelo temor do demônio e das torturas eternas.

         O padre - Não fazeis, entretanto, as evocações depois de uma fórmula religiosa?
         Allan_Kardec - Seguramente colocamos um sentimento de religiosidade nas evocações e nas nossas reuniões, mas não há fórmula sacramental; para os Espíritos o pensamento_é_tudo_e_a_forma_nada. Nós os chamamos em nome de Deus porque cremos em Deus, e sabemos que nada se faz neste mundo sem sua permissão, e que se Deus não lhes permitir vir, eles não virão. Procedemos em nossos trabalhos com calma e recolhimento, porque é uma condição necessária para as observações, e, em segundo lugar, porque conhecemos o respeito que se deve àqueles que não vivem mais sobre a Terra, qualquer que seja sua condição, feliz ou infeliz, no mundo_dos_Espíritos. Fazemos um apelo aos bons_Espíritos porque, sabendo que há bons e maus, resulta que estes_últimos não vêem se misturar fraudulentamente nas comunicações que recebemos. O que tudo isso prova? Que nós não somos ateus, mas isso não implica, de nenhum modo, que sejamos religiosos.

         O padre - Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos é porque são contrárias à religião, como estão formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés. Este último, pronunciando a pena de morte contra essas práticas, prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus.
         Allan_Kardec - Eu vos peço perdão, mas essa proibição não está em nenhuma parte no Evangelho; ela está somente na lei mosaica. Trata-se, pois, de saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da lei evangélica, quer dizer, se ela é mais judaica que cristã. Observe-se mesmo que de todas as religiões, a que faz menos oposição ao Espiritismo é a Judaica, e que ela não tem invocado a lei de Moisés, sobre as quais se apóiam as seitas cristãs, contra as evocações. (Ver: Culto_aos_mortos e TCI)
         Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã, por que interditar a leitura da Bíblia? Que se diria se se proibisse a um cidadão estudar o código das leis de seu país?
         A proibição feita por Moisés tinha então sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que seu povo rompesse com todos os costumes adquiridos entre os Egípcios, e que este, do qual se trata aqui, era um motivo de abusos. Não se evocavam os mortos por respeito e afeição por eles, nem com um sentimento de piedade; era um meio de adivinhação, objeto de um tráfico vergonhoso explorado pelo charlatanismo e a superstição; portanto, Moisés teve razão em proibi-la.
         Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa, é que precisava de meios rigorosos para governar seu povo indisciplinado; também a pena_de_morte está prodigalizada na sua legislação. Apóia-se erradamente sobre a severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos.
         Se a proibição de evocar os mortos veio do próprio Deus, como pretende a Igreja, deve ter sido Deus quem editou a pena de morte contra os infratores.

             * A pena tem, pois, uma origem tão sacra quanto a proibição; por que não a conservaram?
             * Moisés promulgou todas as suas leis em nome de Deus, e por sua ordem. Se se crê que Deus seja seu autor, por que não são elas mais observadas?
             * Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre algum ponto, por que não o é sobre todos?
             * Por que a ela recorrer naquilo que tem necessidade e repeli-la no que não convém?
             * Por que não segui-la em todas as suas prescrições, a circuncisão, entre outras, que Jesus suportou e não aboliu?

         Havia na lei mosaica duas partes:

             * primeiro, a lei de Deus, resumida nas tábuas do Sinai, e que permaneceu porque era divina e o Cristo não fez senão desenvolvê-la;
             * segundo, a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes da época e que o Cristo aboliu.

         Hoje, as circunstâncias não são as mesmas e a proibição de Moisés não tem mais cabimento.

             * Aliás, se a Igreja proíbe evocar os mortos, pode ela impedir que eles venham sem que sejam chamados?
             * Não se vê todos os dias pessoas que jamais se ocuparam com o Espiritismo, como se via antes que ele fosse discutido, ter manifestações de todos os gêneros?

         Outra contradição: se Moisés proibiu a evocação dos Espíritos dos mortos, é porque esses Espíritos poderiam vir, de outro modo a proibição teria sido inútil. Se eles podiam vir naquele tempo, podem ainda hoje; se eles são os Espíritos dos mortos, não são, pois, exclusivamente demônios. É preciso ser lógico antes de tudo.

    (Ver: Comunicação com os mortos segundo o Catolicismo)


         O padre - A Igreja, com efeito, reconhece hoje que o inferno material é uma figura; mas isso não exclui a existência dos demônios; sem eles, como explicar a influência do mal que não pode vir de Deus?
         Allan_Kardec - O Espiritismo não admite os demônios no sentido vulgar da palavra, mas admite os maus_Espíritos que não valem melhor e que fazem igualmente o mal, suscitando maus pensamentos; somente ele diz que esses não são seres à parte, criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal, espécie de párias da criação e carrascos do gênero humano; são seres atrasados, ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reserva o futuro. Isso está de acordo com a Igreja Católica grega que admite a conversão de Satã, alusão ao melhoramento dos maus Espíritos. Anotai ainda que a palavra demônio não implica a idéia de maus Espíritos senão pela acepção moderna que lhe foi dada, porque a palavra grega daímôn significa gênio, inteligência.
         Ora, admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer, em princípio, a realidade das manifestações. É preciso saber se só eles se comunicam, como o afirma a Igreja para motivar a proibição que faz de comunicar-se com os Espíritos. Invocamos aqui o raciocínio e os fatos. Se Espíritos, quaisquer que sejam, se comunicam, não é senão com a permissão de Deus: compreender-se-ia que ele permitisse apenas aos maus? Como? enquanto que deixaria a estes toda a liberdade de vir enganar os homens, interditaria aos bons de virem contrabalançar, neutralizar suas perniciosas doutrinas? Crer que seja assim não seria colocar em dúvida seu poder e sua bondade e fazer de Satã um rival da Divindade? A Bíblia, o Evangelho, os Pais da Igreja, reconhecem perfeitamente a possibilidade de comunicação_com_o_mundo invisível, e desse mundo os bons não estão excluídos; por que, pois, o seriam hoje?
         Aliás, a Igreja admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos, exclui por isso mesmo a idéia de que não se pode ter relações senão com os maus Espíritos. Seguramente, quando as comunicações não encerram senão coisas boas, como a pregação da moral evangélica mais pura e mais sublime, a abnegação, o desinteresse e o amor_ao_próximo; quando aí se combate o mal, com qualquer coloração que ele se apresente, é racional crer-se que o Espírito maligno vem assim realizar seu trabalho?

         O padre - O Evangelho nos ensina que o anjo das trevas, ou Satã, se transforma em anjo de luz para seduzir os homens.
         Allan_Kardec - Satã, segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos, não é um ser real; é a personificação do mal, como outrora Saturno era a personificação do tempo. A Igreja prende à letra essa figura alegórica; é um negócio de opinião que eu não discutirei.
         Admitamos, por um instante, que Satã seja um ser real; a Igreja, à força de exagerar seu poder para amedrontar, chega a um resultado todo contrário, quer dizer, à destruição, não só de todo medo mas também de toda crença em sua pessoa, segundo o provérbio: "quem quer muito provar não prova nada". Ela o representa como eminentemente fino, sagaz e astuto, e na questão do Espiritismo o faz representar o papel de um tolo e de um inábil.
         Uma vez que o objetivo de Satã é alimentar o inferno com suas vítimas e arrebatar almas de Deus, compreende-se que ele se dirija àqueles que estão no caminho do bem para os induzir ao mal, e que por isso ele se transforme, segundo uma muito bela alegoria, em anjo da luz, quer dizer, simule hipocritamente a virtude; mas que ele deixe escapar aqueles que já tem em suas garras é o que não se compreende. Aqueles que não crêem nem em Deus, nem_em_sua_alma, que desprezaram a prece e estão mergulhados no vício, estão para ele tanto quanto é possível estar; nada mais há a fazer para os afundar mais na lama; ora, incitá-los a retornar a Deus, a lhe pedir, a submeter-se à sua vontade, encorajá-los a renunciar ao mal mostrando-lhe a felicidade dos eleitos, e a triste sorte que espera os maus, seria ato de um tolo, mais estúpido que se desse a liberdade a pássaros engaiolados com o pensamento de os recuperar em seguida.
         Há, pois, na doutrina da comunicação exclusiva dos demônios uma contradição que fere o homem sensato; por isso não se persuadirá jamais que os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o negavam, ao bem, aqueles que faziam o mal, que consolam os aflitos, dão força e coragem aos fracos; que, pela sublimidade dos seus ensinamentos elevam a alma acima da vida material, sejam os subordinados de Satã, e que, por esse motivo, deve-se interditar toda relação com o mundo invisível.

         O padre - A Igreja não nega que os bons_Espíritos possam se comunicar, uma vez que reconhece que os santos se manifestaram; A Igreja, porém, não pode considerar como bons os que vêm contradizer seus princípios imutáveis. Os Espíritos ensinam as penas_e_as_recompensas_futuras, mas não ensinam como a Igreja; só a Igreja pode julgar seus ensinamentos e discernir os bons dos maus.
         Allan_Kardec - Eis a grande questão. Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demônio, porque revelou uma lei da Natureza provando o erro de uma crença que se acreditava inatacável; fossem considerados como bons aqueles que vêm contradizer todos os pontos arraigados na opinião exclusiva da Igreja, ou não tivessem proclamado a liberdade de consciência e condenado certos abusos, eles teriam sido os bem-vindos e não seriam qualificados de demônio.
         Tal é também a razão pela qual todas_as_religiões, os muçulmanos tanto quanto os católicos, se crêem na posse exclusiva da verdade absoluta, considerando como obra do demônio toda doutrina que não coincide inteiramente com seu ponto de vista. Ora, os Espíritos não vêm destruir a religião mas, como Galileu, revelar novas leis da Natureza. Se alguns pontos de fé passam por isso, é que, da mesma forma que a crença no movimento do Sol, eles estão em contradição com essas leis. A questão é de saber se um artigo de fé pode anular uma lei da Natureza, que é obra de Deus; e se, essa lei reconhecida, não é mais sábio interpretar o dogma no sentido da lei ao invés de atribuir esta ao demônio.

         O padre - Passemos sobre a questão dos demônios, pois eu sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos. Mas o sistema da reencarnação me parece mais difícil conciliar com os dogmas, porque ele não é uma outra coisa senão a metempsicose renovada de Pitágoras.
         Allan Kardec - Este não é o momento de discutir uma questão que exigiria um longo desenvolvimento; encontrá-la-eis tratada em:

             * O Livro dos Espíritos (nº 166 e seguintes, idem 222)
             * e em A Moral do Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. IV e V).

         Eu não direi sobre isso, pois, senão duas palavras.
         A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais, o que implicava uma degradação. De resto, essa doutrina não era o que se acredita vulgarmente. A transmigração nos animais não era considerada como uma condição inerente à natureza da alma_humana, mas como um castigo temporário;

             * é assim que as almas dos assassinos passariam no corpo de animais ferozes para aí receberem sua punição;
             * a dos impudicos nos porcos e nos javalis;
             * as dos inconstantes e dos avoados, nos pássaros;
             * as dos preguiçosos e dos ignorantes nos animais aquáticos.

         Depois de alguns milhares de anos, mais ou menos segundo a culpabilidade dessa espécie de prisão, a alma reentraria na Humanidade. A encarnação animal não era, pois, uma condição absoluta, e ela se aliava, como se vê, à reencarnação humana, e a prova disso é que a punição dos homens tímidos consistia em passar no corpo de mulheres expostas ao desprezo e às injúrias.(1) Era uma espécie de espantalho para os simples, bem mais que um artigo de fé entre os filósofos. Da mesma forma que se diz à crianças: "se sois maus o lobo vos comerá", os antigos diziam aos criminosos: "tornar-vos-eis lobos". Hoje se lhes diz: "o diabo vos tomará e vos carregará para o inferno".
         (1) Ver A pluralidade das existências da alma, por Pezzani.
         A pluralidade_das_existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, no sentido de que não admite a encarnação da alma nos animais, mesmo como punição. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas que progride sem cessar. Suas diferentes existências corporais se realizam na Humanidade; cada existência é para ela um passo adiante na senda do progresso intelectual e moral, o que é bem diferente. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma única existência, freqüentemente abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar em uma nova encarnação a tarefa que ela não pôde acabar, ou de recomeçar a que fez mal. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que aí se suporta.
         Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências é, ou não, contrária a certos dogmas_da_Igreja, eu me limitarei a dizer isto: De duas coisas uma, ou a reencarnação existe ou não existe; se ela existe é porque está nas leis da Natureza. Para provar que ela não existe seria preciso provar que ela é contrária, não aos dogmas, mas a essas leis, e que se pode encontrar uma outra que explique mais claramente e mais logicamente, as questões que só ela pode resolver.
         De resto, é fácil demonstrar que certos dogmas aí encontram uma sanção racional que os faz aceitos por aqueles que os repeliam por não compreendê-los. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar, o que acontecerá mais tarde pela força das coisas. Aqueles que não quiserem aceitar a interpretação estarão perfeitamente livres, como estão, hoje, de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. A idéia da pluralidade das existências se vulgariza com uma espantosa rapidez em razão de sua extrema lógica e da sua conformidade com a justiça de Deus. Quando ela for reconhecida como verdade natural e for aceita por todo o mundo, que fará a Igreja?
         Em resumo, a reencarnação não é um sistema imaginado pelas necessidades de uma causa, nem uma opinião pessoal; é, ou não é, um fato. Se está demonstrado que certas coisas que existem são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitir que elas são o fato da reencarnação, pois se ela está na Natureza, não poderia ser anulada por uma opinião contrária.

         O padre Aqueles que não crêem nos Espíritos e em suas manifestações, são, no dizer dos Espíritos, menos dotados na vida futura?
         Allan_Kardec - Se essa crença fosse indispensável à salvação dos homens, em que se tornariam aqueles que, desde que o mundo existe, não a puderam ter, e aqueles que, por muito tempo ainda, morrerão sem a ter? Deus pode lhes fechar a porta do futuro? Não; os Espíritos que nos instruem são mais lógicos que isso e nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, e não faz depender a sorte futura do homem, de condições independentes da sua vontade; eles não dizem: fora do Espiritismo não há salvação, mas como o Cristo: fora da caridade não há salvação.

         O padre - Então, permiti-me dizer-vos que, desde o momento em que os Espíritos não ensinam senão os princípios da moral que encontramos no Evangelho, eu não vejo que utilidade pode ter o Espiritismo, uma vez que podíamos nos salvar antes e que ainda podemos fazê-lo sem ele.
         Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas, alguns princípios que mudassem a face do mundo, como fez o Cristo. Pelo menos era só o Cristo, sua doutrina era única, enquanto que os Espíritos são milhares que se contradizem; uns dizem branco, outros preto; de onde seguiu-se que, desde o princípio, seus partidários formam já várias seitas. Não seria melhor deixar os Espíritos tranqüilos e nos atermos ao que temos?
         Allan Kardec - Errais, senhor, em não sair do vosso ponto de vista e de tomar a Igreja como único critério dos conhecimentos humanos. Se Cristo disse a verdade, o Espiritismo não podia dizer outra coisa e, em lugar de lhe lançar pedras, se deveria acolhê-lo como um poderoso auxiliar que veio confirmar, por todas as vozes de além-túmulo, as verdades fundamentais da religião, combatidas pela incredulidade. Que o materialismo o combata, isso se compreende; mas que a Igreja se ligue contra ele com o materialismo, é menos concebível. O que é de todo inconseqüente é que ela qualifica de demoníaco um ensinamento que se apóia sobre a mesma autoridade, e proclama a missão divina do fundador do Cristianismo.
         Mas Cristo disse tudo? podia tudo revelar? Não, porque ele mesmo disse: "teria ainda muitas coisas a vos dizer, mas não as compreenderíeis, por isso vos falo por parábolas". O Espiritismo vem, hoje que o homem está maduro para o compreender, completar e explicar o que Cristo não fez senão esflorar, ou não disse senão sob a forma alegórica. Direis, sem dúvida, que o mérito dessa explicação pertence à Igreja. Mas a qual? à Igreja romana, grega ou protestante? Uma vez que elas não estão de acordo, cada uma explicou no seu sentido e reivindicou esse privilégio. (Ver: Consolador prometido)
         Qual aquela que religou todos os cultos dissidentes? Deus, que é sábio, prevendo que os homens aí misturariam suas paixões e seus preconceitos, não quis lhes confiar os cuidados dessa nova revelação: disso encarregou os Espíritos, seus mensageiros, que a proclamam sobre todos os pontos do globo, isso fora de todo culto particular, a fim de que ela possa se aplicar a todos, e que ninguém a desvie em proveito próprio.

             * Por outro lado, os diversos cultos cristãos não estão em nada afastados do caminho traçado pelo Cristo?
             * Seus preceitos de moral são escrupulosamente observados?
             * Não se tem desvirtuado suas palavras para fazê-las um apoio da ambição e das paixões humanas, que são por elas condenadas?
             * Ora, o Espiritismo, pela voz dos Espíritos enviados de Deus, vem chamar à estrita observação de seus preceitos aqueles que deles se afastam; não seria esse último motivo que o faz qualificar de obra satânica?

         Erradamente, dais o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relacionadas com os fenômenos_espíritas. Não é de espantar que, no início de uma ciência, quando para muitos as observações eram ainda incompletas, tenham surgido teorias contraditórias, mas essas teorias repousam sobre detalhes e não sobre o princípio fundamental. Elas podem constituir escolas que explicam certos fatos à sua maneira, mas não têm mais de seitas que os diferentes sistemas que dividem os nossos sábios sobre as ciências exatas: em medicina, física, etc. Suprimi, pois, a palavra seita que é de todo imprópria no caso presente.

             * Aliás, desde sua origem, o próprio Cristianismo não deu nascimento a uma multidão de seitas?
             * Por que a palavra de Cristo não foi bastante poderosa para impor silêncio a todas as controvérsias?
             * Por que ela é suscetível de interpretações que dividem, ainda hoje, os Cristãos em diferentes Igrejas, que pretendem ser as únicas detentoras da verdade necessária à salvação, se detestam cordialmente e se anatematizam em nome do seu Divino Mestre, que não pregou senão o amor e a caridade? A fraqueza dos homens, direis? seja;
             * por que quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza e transforme a Humanidade como por encantamento?

         Eu me encaminho para a questão de utilidade.

             * Dissestes que o Espiritismo não ensina nada de novo; é um erro. Ele ensina muito àqueles que não se detêm em superficialidades. Tivesse apenas substituído a máxima: fora da caridade não há salvação, em lugar de fora da Igreja não há salvação que os divide, e já teria marcado uma nova era da Humanidade.
             * Dissestes que se poderia passar sem o Espiritismo; de acordo; como se poderia passar sem uma multidão de descobertas científicas. Os homens também se comportavam bem antes da descoberta de todos os novos planetas; antes que se tivessem calculado os eclipses; antes que se conhecesse o mundo microscópico e cem outras coisas. O camponês, para viver e produzir seu trigo, não tem necessidade de saber o que é um cometa. Todavia, ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo de idéias e nos fazem penetrar mais além nas leis da Natureza.

         Ora, o mundo_dos_Espíritos é uma dessas leis, que o Espiritismo nos faz conhecer ensinando-nos a influência_que_exerce_sobre_o_mundo_corporal; supondo-se que a isso se limite sua utilidade, já não seria bastante a revelação de semelhante força?
         Vejamos, agora, sua influência moral. Admitamos que ele não ensine absolutamente nada de novo a esse respeito; qual é o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o materialismo não crê em nada; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo que não tem mais razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega, que se diz ao materialista que tudo não termina com seu corpo, mas pelos fatos, que lhe mostra, permite-lhe tocar com os dedos e com o olhar. Não está aí um pequeno serviço que ele presta à Humanidade, à religião? Mas não é tudo: a certeza da vida futura, o quadro vivo daqueles que nela nos antecederam, mostram a necessidade do bem, e as conseqüências inevitáveis do mal. Eis porque sem ser, em si mesmo, uma religião, o Espiritismo leva essencialmente às idéias religiosas, as desenvolve naqueles que não as têm e as fortifica naqueles em que elas são hesitantes. A religião, pois, encontra nele um apoio, não para essas pessoas de vista estreita que a vêem inteiramente na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas para aqueles que a vêem segundo a grandeza e a majestade de Deus.
         Em uma palavra, o Espiritismo engrandece e eleva as idéias; ele combate os abusos engendrados pelo egoísmo, a cupidez, a ambição; mas quem ousaria proibi-los e deles declarar-se vencedor? Se ele não é indispensável à salvação, facilita-a consolidando-nos no caminho do bem. Qual é, aliás, o homem sensato que ousaria adiantar que um defeito do ortodoxo é mais repreensível aos olhos de Deus do que do ateu e do materialista? Eu coloco honestamente as questões seguintes a todos aqueles que combatem o Espiritismo relativamente às suas conseqüências religiosas:

             1- Qual é o pior dotado na vida futura, aquele que não crê em nada ou aquele que, crendo nas verdades gerais, não admite certas partes do dogma?
             2- O protestante e o cismático estão confundidos na mesma reprovação do ateu e do materialista?
             3- Aquele que não é ortodoxo, no rigor da palavra, mas que faz todo o bem que pode, que é bom e indulgente para com o seu próximo, leal em suas relações sociais, está menos garantido de sua salvação que aquele que crê em tudo, mas que é duro, egoísta e descaridoso?
             4- Qual vale mais aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem as do dever da ortodoxia, ou a prática destes últimos sem as da moral?

         Eu respondi, senhor abade, às questões e às objeções que me haveis dirigido, mas, como vos disse inicialmente, sem nenhuma intenção preconcebida de vos conduzir às nossas idéias e mudar vossas convicções, limitando-me a vos fazer examinar o Espiritismo sob seu verdadeiro ponto de vista. Se não tivésseis vindo eu não vos teria procurado. Isso não quer dizer que desprezemos vossa adesão aos nossos princípios se ela deva ter lugar; bem longe disso; somos felizes, ao contrário, com todas as aquisições que fazemos e que têm para nós tanto maior valor quanto sejam livres e voluntárias. Não temos nenhum direito para constranger quem quer que seja e teríamos escrúpulo em perturbar a consciência daqueles que, tendo crenças que os satisfazem, não vêm espontaneamente a nós.
         Nós dissemos que o melhor meio de se esclarecer sobre o Espiritismo é estudando previamente sua teoria; os fatos virão naturalmente em seguida, e serão compreendidos, qualquer que seja a ordem na qual os conduzam as circunstâncias. Nossas publicações são feitas com o objetivo de favorecer esse estudo; eis, a esse respeito, o roteiro que aconselhamos.
         A primeira leitura a fazer-se é a deste resumo que apresenta o conjunto dos pontos mais destacados da ciência; com isso, já se pode fazer dela uma idéia e se convencer de que, no fundo, há alguma coisa séria.
         Nesta rápida exposição fomos levados a indicar os pontos que devem, particularmente, fixar a atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações da maioria daqueles que julgam o que não compreendem ou segundo suas idéias preconcebidas.
         Se este primeiro contato dá o desejo de sobre ele se saber mais, ler-se-á:

             * O Livro dos Espíritos, onde os princípios da doutrina estão completamente desenvolvidos;
             * depois, O Livro dos Médiuns para a parte experimental, destinado a servir de guia para aqueles que querem operar por si mesmos, como para aqueles que querem se inteirar dos fenômenos.
             * Vêm, em seguida, as diversas obras onde estão desenvolvidas as aplicações e as conseqüências da doutrina, tais como: A Moral do Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno Segundo o Espiritismo, etc.

         A Revista Espírita é, de alguma sorte, um curso de aplicação, pelos numerosos exemplos e os desenvolvimentos que ela encerra, sobre a parte teórica e sobre a parte experimental.
         Às pessoas sérias, que tenham feito um estudo prévio, teremos prazer em dar, verbalmente, as explicações necessárias sobre os pontos que não tenham compreendido inteiramente.

         [78 - Terceiro diálogo - O Padre]

    Fonte: GUIA - HEU (Homem/Espírito/Universo)

    Auto-de-fé de Barcelona

         Maurice Lachâtre foi, por vontade própria e/ou imposição dos fatos, o contestador espírita por excelência. Intelectual e editor francês, achava-se estabelecido em Barcelona com uma livraria, quando solicitou a Kardec seus livros para divulgá-los na Espanha. Só não contava com a intolerância do bispo da cidade. Por ordem deste, as obras foram apreendidas e queimadas numa grande fogueira. O episódio, ocorrido a 9 de outubro de 1861, conhecido como o Auto-de-fé de Barcelona, apenas serviu para revigorar a coragem do livreiro.

         O Auto de Fé de Barcelona foi a queima, em praça pública, em Barcelona, Espanha, de 300 volumes de obras espíritas, que Kardec remetera ao livreiro Maurício Lachâtre, em 09 de outubro de 1861, às 10:30 horas

         Não informamos nada, aos nossos leitores, sobre esse fato, que já não saibam pela via da imprensa; o que ocorreu de admirar, foi que os jornais, que passam geralmente por bem informados, hajam podido colocá-lo em dúvida; essa dúvida não nos surpreende; o fato em si mesmo parece tão estranho para o tempo em que vivemos, e está de tal modo longe de nossos costumes que, alguma cegueira que se reconhecesse ao fanatismo, crê-se sonhar ouvindo dizer que as fogueiras da inquisição se acendem ainda em 1861, à porta da França; a dúvida, nessa circunstância, é uma homenagem prestada à civilização européia, ao próprio clero católico. Em presença de uma realidade incontestável hoje, o que deve mais espantar, é que um jornal sério, que cai cada dia, sem dó nem piedade, sobre os abusos e as usurpações do poder sacerdotal, não haja encontrado, para assinalar esse fato, senão algumas palavras zombeteiras, acrescentando: "Em todo caso, não seremos nós que nos divertiremos, neste momento, em fazer girar as mesas na Espanha." (Siècle de 14 de outubro de 1861.)

             * O Siècle está a ver, portanto, o Espiritismo nas mesas girantes?
             * Ele também está, pois, bastante cego pelo ceticismo para ignorar que toda uma doutrina filosófica, eminentemente progressiva, saiu dessas mesas das quais tanto se zombou?
             * Não sabe, pois, ainda, que essa idéia fermenta por toda a parte; que por toda a parte, nas grandes cidades como nas pequenas localidades, do alto a baixo da escala, na França e no estrangeiro, essa idéia se difunde com uma rapidez extraordinária?
             * Que, por toda a parte, as massas proclamam nela a aurora de uma renovação social?
             * O golpe com o qual se acreditou feri-la, não é um indício de sua importância?

         Porque não se investe assim contra uma infantilidade sem conseqüência, e Don Quixote não retornou na Espanha para se bater contra os moinhos de vento.
         O que não é menos exorbitante, e o que contra o qual se espanta, é não se ter visto um protesto enérgico, é a estranha pretensão que se arroga o bispo de Barcelona de fazer a polícia na França. Ao pedido que foi feito de reexportar as obras, respondeu com uma recusa assim motivada: A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países.
         Assim, eis um bispo estrangeiro, que se institui em juiz do que convém ou não convém à França! A sentença, portanto, foi mantida e executada sem mesmo isentar o destinatário das despesas de alfândega, que se teve muito cuidado em fazê-lo pagar. Eis a narração que nos foi pessoalmente dirigida: "Este dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:

             * "A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;
             * "A Revista Espiritualista, diretor Piérard;
             * "O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;
             * "O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;
             * "O que é o Espiritismo, pelo mesmo;
             * "Fragmento de sonata, ditado pelo Espírito de Mozart;
             * "Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand;
             * "A História de Jeanne d'Arc, ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufau;
             * "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.
             * "Assistiram ao auto-de-fé:
             * "Um padre revestido das roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra mão;
             * "Um notário encarregado de redigir a ata do auto-de-fé;
             * "O escrevente do notário;
             * "Um empregado superior da administração da alfândega;
             * "Três moços (serventes) da alfândega, encarregados de manter o fogo;
             * "Um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.
             * "Uma multidão inumerável encobria os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira.
             * "Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras Espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes que gritavam: Abaixo a inquisição!
             * "Numerosas pessoas, em seguida, se aproximaram da fogueira, e recolheram as suas cinzas."

         Uma parte dessas cinzas nos foi enviada; com elas se encontra um fragmento de O Livro dos Espíritos consumido pela metade. Nós o conservamos preciosamente, como um testemunho autêntico desse ato insensato. Toda opinião à parte, esse assunto levanta uma séria questão de direito internacional. Reconhecemos ao governo espanhol o direito de proibir a entrada, sobre o seu território, das obras que não lhe convém, como a de todas as mercadorias proibidas. Se essas obras tivessem sido introduzidas clandestinamente e em fraude, nada haveria a dizer; mas são expedidas ostensivamente e apresentadas na alfândega; era, pois, uma permissão legalmente solicitada. Esta acreditou dever referi-la à autoridade episcopal que, sem outra forma de processo, condena as obras a serem queimadas pela mão do carrasco. O destinatário pediu, então, para reexportá-las para o lugar de origem, e lhe foi respondido pelo fim de não receber, relatado acima. Perguntamos se a destruição dessa propriedade, em tais circunstâncias, não é um ato arbitrário e fora do direito comum.
         Examinando-se este assunto do ponto de vista de suas conseqüências, diremos primeiro que não houve senão uma voz para dizer que nada podia ser mais feliz para o Espiritismo. A perseguição sempre foi aproveitável à idéia que se quis proscrever; por aí se lhe exalta a importância, se lhe desperta a atenção, e fazendo-o conhecer por aqueles que o ignoram. Graças a esse zelo imprudente, todo o mundo, em Espanha, vai ouvir falar do Espiritismo e quererá saber o que é; é tudo o que desejamos. Podem-se queimar os livros, mas não se queimam as idéias; as chamas das fogueiras as super-excitam em lugar de abafá-las. As idéias, aliás, estão no ar, e não há Pirineos bastante altos para detê-las; e quando uma idéia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la. O que se lhe haja feito, o Espiritismo já tem numerosas e profundas raízes na Espanha; as cinzas da fogueira vão fazê-las frutificar. Mas não será só na Espanha que esse resultado será produzido, é o mundo inteiro que lhe sentirá o contragolpe. Vários jornais da Espanha estigmatizaram esse ato retrógrado, como o merece. Lás Novedades de Madrid, de 19 de outubro, entre outros, contém, sobre esse assunto, um notável artigo; nós o reproduziremos em nosso próximo número.
         Espíritas de todos os países! Não vos esqueçais desta data de 9 de outubro de 1861; ela será marcada, nos fastos do Espiritismo; que ela seja para vós um dia de festa e não de luto, porque é a garantia do vosso próximo triunfo!
         Entre as numerosas comunicações que os Espíritos ditaram sobre esse acontecimento, não citaremos senão as duas seguintes, que foram dadas espontaneamente na Sociedade de Paris; elas dele resumem todas as causas e todas as conseqüências.

             * "O amor da verdade deve sempre se fazer ouvir: ela dissipa a névoa, e por toda a parte brilha ao mesmo tempo. O Espiritismo chegou para ser conhecido por todos; logo será julgado e colocado em prática; quanto mais houver perseguições, mais depressa esta sublime Doutrina chegará ao seu apogeu; seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, com isso se surpreendem de maneira que ninguém ignore que Deus permite àqueles que deixaram esta Terra de exílio de retornar para aqueles que amaram. Tranqüilizai-vos; as fogueiras se extinguirão por si mesmas, e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive." DOLLET.
               Nota. Este Espírito, que se manifestou espontaneamente, disse ser o de um antigo livreiro do século dezesseis.
             * Era preciso alguma coisa que ferisse, com um golpe violento, certos Espíritos encarnados para que se decidissem ocupar-se desta grande Doutrina que deve regenerar o mundo. Nada é inutilmente feito sobre a vossa Terra, para isso, e nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos bem que, assim agindo, faríamos dar um passo imenso para a frente. Esse fato brutal, inaudito nos tempos atuais, foi consumado para atrair a atenção dos jornalistas que permaneciam indiferentes diante da agitação profunda que abalava as cidades e os centros Espíritas; deixavam dizer e deixavam fazer; mas se obstinavam em fazer ouvido de mercador, e respondiam pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Por bem ou por mal, é preciso que dele falem hoje; uns constatando o histórico do fato de Barcelona, os outros desmentindo-o, deram lugar a uma polêmica que dará volta ao mundo, e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que, hoje, a retaguarda da inquisição fez seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos." SAINT DOMINIQUE.

    Revista Espírita, novembro de 1861 - Paris (França)
    Allan Kardec

         O Auto de Fé de Barcelona foi a consagração do Espiritismo. Literalmente o seu batismo de fogo. Mas a Espanha levantou-se como um só homem, para saber o que era essa doutrina que aterrorizava o clero. A comissão episcopal foi vaiada pelo povo, e assim que a guarda armada se retirou da praça do Quemadero, onde muitos mártires tiveram seus corpos incinerados no intuito de salvar as suas almas, o povo simples recolheu as cinzas dos livros e fragmentos que não foram consumidos pelas chamas, e levaram para as suas casas.
         Um exemplar de O Livro_dos_Espíritos, carbonizado pela metade, foi enviado a Allan Kardec, que o guardou como uma doce lembrança. A violência clerical e o servilismo do Estado, consagrou também o livreiro “Lachatre”.
         Muitas outras perseguições viriam. Muitas lágrimas ainda seriam derramadas. É por isso que o movimento espírita tem que respirar liberdade, tem que ser compreensivo, mas não conivente, porque venceu a ditadura de Napoleão 3º - a força esmagadora da perseguição religiosa, o orgulho acadêmico das ciências, o esnobismo filosófico, para firmar-se como doutrina consoladora e iluminadora.

    Amílcar Del Chiaro Filho
    Auto de Fé de Barcelona


         Os jornais espanhóis não foram tão moderados em reflexões, sobre esse acontecimento, quanto os jornais franceses. Qualquer que seja a opinião que se professe com respeito às idéias espíritas, há, no próprio fato, alguma coisa de tão estranha para o tempo em que vivemos, que ele excita mais piedade do que cólera contra as pessoas que parecem ter dormido há vários séculos, e despertado sem ter consciência do caminho que a Humanidade percorreu, crendo-se, ainda, no ponto de partida.
         Eis um extrato do artigo publicado, a esse respeito, por Las Novedades, um dos grandes jornais de Madrid: "O auto-de-fé celebrou há alguns meses em Ia Corogne, onde se queimou um grande número de livros à porta de uma igreja, produzira em nosso espírito, e no de todos os homens de idéias liberais, tristissimas impressão. Mas foi com uma indignação muito maior ainda que foi recebida, em toda a Espanha, a novidade do segundo auto-de-fé celebrado em Barcelona, nessa bela capital civilizada da Catalunha, em meio de uma população essencialmente liberal, à qual, sem dúvida, se fez esse insulto bárbaro, porque se reconhece nela grandes qualidades."
         Depois de dar conta dos fatos segundo o jornal de Barcelona, acrescenta: "Eis o repugnante espetáculo que os homens da união liberal autorizaram, em pleno século XIX: uma fogueira em Ia Corogne, uma outra em Barcelona, e muita outras ainda que não faltarão em outros lugares. Foi o que deveria acontecer, porque é uma conseqüência imediata do espírito geral que domina o estado de coisas atual, e que se reflete em todas as coisas.
         Reação interna relativamente aos projetos de lei que se apresenta; reação externa apoiando todos os governos reacionários da Itália, antes e depois de sua queda, combatendo as idéias liberais em todas as ocasiões, procurando o apoio da reação de todos os lados, e obtendo-o ao preço de mais inábeis concessões."
         Seguem longas considerações relativamente aos sintomas e às conseqüências desse ato, mas que, pelo seu caráter essencialmente político, não são da alçada de nosso jornal.
         O Diário de Barcelona, jornal ultramontano, foi o primeiro que anunciou o auto-de-fé, dizendo que "Os títulos dos livros queimados bastavam para justificar a sua condenação; que é o direito e o dever da Igreja fazer respeitar a sua autoridade, tanto mais quando se dá mais liberdade à imprensa, principalmente nos países que jouissent (gozam) da terrível praga da liberdade dos cultos".
         La Carona, Jornal de Barcelona, fez, a esse respeito, as reflexões seguintes: "Esperávamos que nosso colega (le Diaro), que dera a notícia, teria a bondade de satisfazer a curiosidade do público sério, alarmado com semelhante ato, incrível no tempo em que vivemos; mas foi em vão que esperamos as suas explicações. Desde então, fomos assaltados por perguntas sobre esse acontecimento, e nos manda a verdade dizer que os amigos do governo com ele sentem mais dificuldades do que aqueles que lhe fazem oposição.
         "No objetivo de satisfazer a curiosidade tão vivamente excitada, procuramos a verdade, e temos o pesar de dizer que o fato é exato, e que, com efeito, o auto-de-fé foi celebrado nas circunstâncias seguintes: "Os expedientes empregados para chegar a esse resultado não podem ser mais expeditos nem mais eficazes. Apresentam-se ao controle da alfândega os livros supracitados; respondese ao caixeiro que não se poderia expedir sem uma autorização do senhor bispo. O senhor bispo estava ausente; em seu retorno, se lhe apresentou um exemplar de cada obra, e, depois detê-los lido, ou fazê-los ler por pessoas de sua confiança, conformando-se ao julgamento de sua consciência, ordenou que fossem lançados ao fogo como sendo imorais e contrários à fé católica. Reclamou-se contra uma tal sentença, pediu-se ao governo que, uma vez que não permitia a circulação desses livros na Espanha, se permitisse ao menos, ao seu proprietário, reexpedi-los para o seu lugar de origem; mas isso mesmo foi recusado, dando por razão que sendo contra a moral e a fé católica, o governo não podia consentir que esses livros fossem perverter a moral e a religião de outros países. Apesar disso, o proprietário foi obrigado a pagar os direitos, que parece não deveriam ser exigidos. Uma multidão imensa assistiu ao auto-de-fé, o que não tem nada para admirar, tendo-se em conta a hora e o lugar da execução, e sobretudo a novidade do espetáculo. O efeito que produziu sobre os assistentes foi a estupefação em uns, o riso em outros, e a indignação entre a maioria, à medida que se dava conta do que se passava. Palavras de ódio saíam de mais de uma boca, depois vieram os gracejos, os ditos bufos e mordazes da parte daqueles que vêem, com um extremo prazer, a cegueira de certos homens; e isso tem sua razão, porque se entrevêem, nessa reação, digna do tempo da inquisição, o triunfo mais rápido de suas idéias; escarneciam-se a fim de que essa cerimônia não aumentasse o prestígio da autoridade que, com tanta complacência, se presta a exigências verdadeiramente ridículas. Quando as cinzas dessa nova fogueira foram resfriadas, notou-se que pessoas que estavam presentes, ou que passavam por perto, sabedoras do fato, se dirigiam para o lugar do auto-de-fé, e recolhiam uma parte das cinzas para conservá-las.
         "Tal é o relato desse acontecimento, do qual não se pode impedir de falarem as pessoas que aí se encontram; indigna-se, lamenta-se ou se rejubila, segundo a maneira de interpretar as coisas. Os sinceros partidários da paz, do princípio de autoridade e da religião, se afligem com essas demonstrações reacionárias, porque compreendem que, às reações, sucedem as revoluções, e sabem que aqueles que semeiam ventos não podem colher senão tempestades. Os liberais sinceros se indignam que semelhantes espetáculos sejam dados ao mundo por homens que não compreendem a religião sem intolerância, e querem impô-la como Maomé impôs o seu Alcorão.
         "Agora, abstração feita da qualificação dada aos livros queimados, examinaremos o fato em si mesmo. A jurisprudência pode admitir que um bispo diocesano tenha uma autoridade sem apelação e possa impedir a publicação e a circulação de um livro? Dir-se-nos-á que a lei sobre a imprensa assinala o que se deve fazer nesse caso; mas essa lei diz que os livros, tão maus e perniciosos que sejam, serão lançados ao fogo com esse preparativo? Nela não encontramos nenhum artigo que possa justificar semelhante ato. Além disso, os livros em questão foram publicamente declarados. Um comissário declara os livros à alfândega, porque poderiam estar na categoria daqueles que o artigo 6 assinala; passam à censura diocesana, o governo poderia proibir-lhe a circulação, e a coisa estava terminada. Os padres deveriam se limitar a aconselhar aos seus fiéis de se absterem de tal ou tal leitura, se a julgassem contrária à moral e à religião; mas não se deveria lhes conceder um poder absoluto que os torna juizes e carrascos. Abstemo-nos de emitir qualquer opinião sobre o valor das obras queimadas; o que vemos é o fato, são suas tendências, e o espírito que ele revela. Em qual diocese se absterá, doravante, de usar, senão de abusar, de uma faculdade que, segundo o nosso julgamento, o próprio governo não tem, se, em Barcelona, na liberal Barcelona, o fazem? O absolutismo é muito sagaz; ensaia e pode dar um golpe de autoridade em qualquer parte; se triunfa, ousa mais. Esperamos, no entanto, que os esforços do absolutismo serão inúteis, que todas as concessões que lhe fizeram não terão outro resultado senão revelar o partido que, renovando as cenas como as de quinta-feira última, se precipita, cada vez mais, no abismo para onde corre cegamente; é o que nos faz esperar o efeito produzido em Barcelona por esse auto-de-fé.

    Revista Espírita, dezembro de 1861 - Paris (França)
    Allan Kardec

    Fonte: GUIA - HEU (Homem/Espírito/Universo)

    PROLEGÔMENOS s.m.pl. Longa introdução no começo de uma obra. / Conjunto de noções preliminares de uma ciência.

    Prolegômenos do Livro dos Espíritos

         Fenômenos alheios às leis da ciência humana se dão por toda parte, revelando na causa que os produz a ação de uma vontade livre e inteligente.
         A razão diz que um efeito inteligente há de ter como causa uma força inteligente e os fatos hão provado que essa força é capaz de entrar em comunicação com os homens por meio de sinais materiais.
         Interrogada acerca da sua natureza, essa força declarou pertencer ao mundo dos seres espirituais que se despojaram do revelada a Doutrina dos Espíritos.
         As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo estão na ordem natural das coisas e não constituem fato sobrenatural, tanto que de tais comunicações se acham vestígios entre todos os povos e em todas as épocas. Hoje se generalizaram e tornaram patentes a todos.
         Os espíritos anunciam que chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus e os agentes de Sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da Humanidade.
         O Livro dos Espíritos é o repositório de seus ensinos. Foi escrito por ordem e mediante ditado de Espíritos superiores, para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema. Nada contém que não seja a expressão do pensamento deles e que não tenha sido por eles examinado. Só a ordem e a distribuição metódica das matérias, assim como as notas e a forma de algumas partes da redação constituem obra daquele que recebeu a missão de os publicar.
         Em o número dos Espíritos que concorreram para a execução desta obra, muitos se contam que viveram, em épocas diversas, na Terra, onde pregaram e praticaram a virtude e a sabedoria. Outros, pelos seus nomes, não pertencem a nenhuma personagem, cuja lembrança a História guarde, mas cuja elevação é atestada pela pureza de seus ensinamentos e pela união em que se acham com os que usam de nomes venerados.
         Eis em que termos nos deram, por escrito e por muitos médiuns, a missão de escrever este livro:

             * "Ocupa-te, cheio de zelo e perseverança, do trabalho que empreendeste com o nosso concurso, pois esse trabalho é nosso. Nele pusemos as bases de um novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade. Mas, antes de o divulgares, revê-lo-emos juntos, a fim de lhe verificarmos todas as minúcias.
             * "Estaremos contigo sempre que o pedires, para te ajudarmos nos teus trabalhos, porquanto esta é apenas uma parte da missão que te está confiada e que já um de nós te revelou.
             * "Entre os ensinos que te são dados, alguns há que deves guardar para ti somente, até nova ordem. Quando chegar o momento de os publicares, nós to diremos. Enquanto esperas, medita sobre eles, a fim de estares pronto quando te dissermos.
             * "Porás no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos, porque é o emblema do trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é a cepa; o espírito é o licor; a alma ou espírito ligado à matéria é o bago. O homem quintessência o espírito pelo trabalho e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo o Espírito adquire conhecimentos.
             * "Não te deixes desanimar pela crítica. Encontrarás contraditores encarniçados, sobretudo entre os que têm interesse nos abusos. Encontrá-los-ás mesmo entre os Espíritos, por isso que os que ainda não estão completamente desmaterializados procuram freqüentemente semear a dúvida por malícia ou ignorância. Prossegue sempre. Crê em Deus e caminha com confiança: aqui estaremos para te amparar e vem próximo o tempo em que a Verdade brilhará de todos os lados.
             * "A vaidade de certos homens, que julgam saber tudo e tudo querem explicar a seu modo, dará nascimento a opiniões dissidentes. Mas, todos os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão num só sentimento: o do amor do bem e se unirão por um laço fraterno, que prenderá o mundo inteiro. Estes deixarão de lado as miseráveis questões de palavras, para só se ocuparem com o que é essencial. E a doutrina será sempre a mesma, quanto ao fundo, para todos os que receberem comunicações de Espíritos superiores.
             * "Com perseverança é que chegarás a colher os frutos de teus trabalhos. O prazer que experimentarás, vendo a doutrina propagar-se e bem compreendida, será uma recompensa, cujo valor integral conhecerás, talvez mais no futuro do que no presente. Não te inquietes, pois, com os espinhos e as pedras que os incrédulos ou os maus acumularão no teu caminho. Conserva a confiança: com ela chegarás ao fim e merecerás ser sempre ajudado.
             * "Lembra-te de que os Bons Espíritos só dispensam assistência aos que servem a Deus com humildade e desinteresse e que repudiam a todo aquele que busca na senda do Céu um degrau para conquistar as coisas da Terra; que se afastam do orgulhoso e do ambicioso. O orgulho e a ambição serão sempre uma barreira erguida entre o homem e Deus. São um véu lançado sobre as claridades celestes, e Deus não pode servir-se do cego para fazer perceptível a luz."

         São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc., etc.

    Fonte: GUIA - HEU (Homem/Espírito/Universo)